domingo, 29 de julho de 2007

Coisas do amor.

Leandro desceu da lotação e caminhou a passos tortos, o álcool já corria por muito tempo em sua veia e a meta naquele momento era chegar inteiro na sua casa. É que a noite os bairros andam perigosos e o Montreal não era nenhuma exceção. Passos lentos e cansados sobem a rua da sua casa, sem nenhuma cautela típica dos bêbados de 19 anos; a farra estava muito boa e agora o único pensamento era chegar e entrar no seu quarto sem acordar sua mãe, pois seu pai, um caminhoneiro, estava de viagem

Olhou o relógio de frente ao muro amarelo da sua casa, eram 2 e 15 da manhã e já lutava para enfiar a chave no lugar certo. Quando entrou, foi percebendo uma música nada comum para aquele horário!Leandro gelou, pois sua situação era catastrófica e certamente levaria um sermão!

Abriu a porta lentamente, de modo que sem querer o ruído desta fora abafada pela música que ressoava lá dentro; reconhecendo a música, tomou gosto pela escolha do QUEEN.
Atravessou o corredor, onde ao final situava seu quarto, mas deveria passar pelo quarto de seus pais, que era de onde vinha a música... Mas ao tentar ser silencioso, algo lhe chamou a atenção diante da porta e para seu espanto, virou o rosto e se viu diante de uma cena que para ele era chocante.

Nuas! Sua mãe e uma jovem da idade de Leandro, ambas desesperadas, descobertas do sigilo das carícias que trocavam ao som de um rock dos anos 80. Leandro estava pasmo diante daquela cena. O que aquela garota fazia nua transando com a sua mãe?

Aquela foi uma longa e torturante noite para Leandro, onde os berros de indignação eram escutados por todo quarteirão naquela madrugada.

sábado, 21 de julho de 2007

O perneta

Em uma cidade do interior de Minas Gerais, chamada Sete Lagoas, existia um tal de Perneta. Homem bravo e louco, suas histórias, passadas de boca em boca, ganham proporções de mitos. Assim, Perneta é um mito setelagoano. Ele, claro, só tem uma perna e se move com a ajuda de uma muleta; louro e de olhar macabro, é temido pela feição e feitos... Dizem até que já venceu 8 homens armados de facas ao mesmo tempo, que corria mais que um carro comum, que abriu a barriga da mãe para ver o que tinha dentro, entre outras coisas.

Estava eu outro dia perto do CAT (Centro de Atendimento ao Turista), que é algo muito pouco visitado, exceto quando lá se vende Abadás para o Carnasete, o carnaval temporão da cidade. Na rua que fica atrás deste lugar é onde fica boa parte dos pontos finais de ônibus; o lugar é movimentadíssimo! Pessoas de todas as etnias se acotovelando, olhares que se cruzam e se desfazem por medo ou por timidez, algumas conversas descontraídas e atentas ao ronco dos motores, olhares estranhos e poucos conhecidos de algumas mulheres bonitas, carros passando e ônibus parando, o vendedor de picolé, sempre ali naquele mesmo canto e eu em um tédio comum ao ato de esperar, algumas pessoas um pouco acomodadas nos bancos... Sempre me sinto satisfeito quando não tenho que ficar em pé.

Eis que surge o Perneta, eu nunca o tinha visto. Lembrava um homem de 40 anos, pele ressecada e cabelos louros e curtos, o olhar era intimidante e inspirava o receio de tê-lo perto de mim, e claro, a muleta, embora ele a manobrasse com maestria... O personagem de tantos mitos estava pronto em minha mente, diante de mim.

Isoladas e amedrontas, duas mulheres. Ambas acuadas de súbito pelo vácuo que fez a multidão em defesa própria. Perneta não teve dúvidas... A medida que ia se aproximando, as duas se faziam cada vez mais de desentendidas até o limite de onde não era possível, ele estava lá, diante delas. Elas olhavam apavoradas para todos os lados, a fim de perceberem um súbito herói setelagoano que evidentemente não seria eu. Ninguém queria se arriscar e o inusitado aconteceu!

Subitamente, o Perneta arrancou a bolsa das mãos de uma das garotas para o espanto geral e para uma mistura de perda e alívio de uma das garotas. Os guardas municipais que passavam por ali logo perceberam o que acontecia e se puseram a persegui-lo, mas estavam um pouco longe. Perneta correu numa velocidade impressionante ao atravessar a rua do ponto final, por meio a carros em alta velocidade e com um pulo, passou por cima de um muro de três metros sem que os guardas nada pudessem fazer para acompanhá-lo.

A polícia chegou e não conseguiu achar o Perneta, estaria registrado mais um mito setelagoano.

sexta-feira, 6 de julho de 2007

10. Uma verdade cruel.

A última nave da expedição Vênus daquele ano decola de solo terrestre. Abaixo é possível se observar cada vez menor o aglomerado cinzento de metal e coberto pela espessa camada de gases também acinzentados. Sinais de luz são tudo que restam naquela altitude e as turbinas são ligadas a atravessar a atmosfera, enfim, o planeta acinzentado seria deixado para trás. De baixo, as pessoas acompanhavam ansiosas pelo que seria, segundo informações oficiais do governo, a segunda expedição enviada para o planeta desconhecido. Maravilhados diante seus televisores ou até mesmo completando visualmente a partida daquela máquina voadora, os desejos infantis de serem astronautas exploradores eram vivenciados pela ótica do observador.

Horas depois aquele mísero objeto cruzador do sistema solar já se via diante de um planeta magnificamente belo e incursá-lo a dentro seria a próxima tarefa. Todos estavam apostos e ansiosos quando a atmosfera fora atacada pelo metal e tudo corria muito bem.

A nave atravessa a camada colorida de gases e tudo indica que o pouso diante um terreno que ao longe lembrava a pele de um animal seria tranquilo. Todavia, o radar acusa a aproximação de um grande e colossal objeto. De tão rápido, a informação não pode ser digerida pelo comando e o choque foi inevitável! Ao que parece, uma enorme pedra acinzentada atingira a nave e a lançara velozmente pelo fator da inércia, mas deixando um rombo que fazia vazar todo o combustível. Foi tudo muito rápido e a espaço - nave só conheceu o chão muitos kilômetros depois, em um ambiente de vidro absoluto onde o horizonte se perdia de vista.

O choque foi destruidor, o impacto da queda fez a máquina quicar várias vezes e a cada toque no chão ela se desfazia mais e mais, num espetáculo de metal se destroçando em piruetas velozes. Os fragmentos do cruzador estrelar espalharam-se por kilômetros.

Eis que surgem passos no meio do vidracal a se desvencilhar dos cacos metálicos e do piso. É Camargo, um tripulante deixado a própria sorte na primeira viagem ao planeta. Seu rosto desesperançoso e resignado agora caminha por entre as ferragens; sobreviveu a deglutir pequenas plantas que encontrava no deserto de vidro, bem como bebendo o sangue destas. Ao observar o que seria um laboratório, encontra uma mulher degolada... Todavia, ela o observa temerosa, era Yunna. Camargo dizia que a morte inexiste naquele planeta, mas ela já podia saber por si própria.

Fim. =)

9. Uma decisão incompreensível.

Quase que completamente privado de sua racionalidade, Gorano agora embrenha-se na atmosfera daquela região. A Insanidade confunde seus pensamentos e a saciação da fome é o único objetivo que o norteia. Todavia, algo parece estar diferente naquela paisagem, é como se o céu caísse sobre ele em uma tempestade de gases de cores fortes e agressivas, acompanhado por descargas magnéticas que ferem a visão e confundem pela aleatoriedade dos movimentos.

O espanto ao maravilhosamente terrível se consolida à anarquia de sentimentos, emoções e instintos e aquilo passa a devorá-lo por dentro. Como um animal acuado que era, os berros desesperados daquele que nada tinha o que fazer diante do horror se proliferavam, empurrando-o rapidamente ao estado letárgico de uma razão enfraquecida.

As pedras flutuantes agora deslocavam-se aleatoriamente e no eventual choque o estrondo pavoroso era percebido por qualquer um que tivesse ouvidos para escutar, logicamente aquela melodia da destruição trazia em si o descompasso de um acaso perturbador.

O caos era tudo que existia, até que finalmente os gases sobem e as pedras se colocam em seus novos lugares. Gorano, que agora observava a tudo maravilhado como um recém-nascido, observa uma grande e colossal pedra flutuante partir em alguma direção a altíssima velocidade. Ela some no horizonte e ele tomba a babar.

domingo, 1 de julho de 2007

8. A besta.

Semanas depois de estourada a revolta, muito pouco restou da tripulação. Os grupos que se defendiam no teor do medo, viram-se obrigados a duelar pela canibal comida até que restasse apenas um. Algo de diferente havia naquele lugar, a fome era incessante e as fezes já não eram perdoadas pelo apetite voraz.

Havia um último grupo, da qual pertencia Gorano, este já estava completamente deformado, mas tinha uma vantagem. Um olho ainda funcionava e seus dentes pareciam bem equipados diante do restante do grupo, que apenas vagava esfomeado e a esmo. Diante da barbárie que havia presenciado, atacar aquelas pessoas não seria uma idéia exatamente questionável, tentava fugir de antigos pensamentos da moral que tentavam o apunhalar a todo custo, todavia, a realidade era verdadeiramente outra, mesmo que a adaptação fosse difícil e a custo de toda sua construção como pessoa, afinal, ele estava ali, vivo!

Gorano decide atacar os outros membros, e enquanto faz isto, a visão do resto da embarcação espacial se reduz apenas ao sangue que não fora tomado, trapos que não se enroscaram na carne ao serem ingeridos, ossos partidos e esquecidos. A luz macabra continuava por todo local a trazer à tona aquele cenário de uma batalha épica pela vida, onde valores sucumbiam às necessidades do momento e o horror de pessoas era percebido a cada instante.

Vitorioso de sua empreitada, Gorano, ainda mais ferido e com a brutalidade no âmago do espírito, uma força animal que o arrastava e já o fazia esquecer de que era humano, trabalhava sobretudo com as vontades do instinto e sua imediata satisfação; perdera palavras e sentia não precisar dela. No mais, o máximo que precisou da memória, ele teve, e assim saiu daquele lugar rumo à paisagem das pedras flutuantes.