quarta-feira, 27 de junho de 2007

7. O limite moral.

O terror se espalhara! Um estado animalesco de luta pela própria sobrevivência se instalara até mesmo fora dos limites da habitação humana. Na sala de reuniões, Comandante Cláudio agoniza inerte, mutilado por uma revolta outrora bem sucedida no que tange à eliminação de um poder não coerente com a vontade do grupo, ele ainda estava sendo devorado por dois daqueles que deveriam ser seus subordinados. Os dentes arracam-lhe furiosamente a carne do seu peito, alimento suculento naquele momento de falta total da comida tradicional, outros dentes lhe mordiam e arrancavam os dedos da mão do único membro que ainda possuía. Cláudio agora estava sem olhos, sem lábios, suas tripas foram devoradas, o sangue o banhava e sequer podia gritar, sua língua e grande parte do pescoço também serviram de banquete àqueles que apenas conheciam a fome. Cláudio implorava internamente para que morresse logo, lembrava-se de vários deuses, lembrava-se de um mundo pacífico e perfeito que viria após a morte, mas aqueles instantes eram intermináveis e sua dor era intransferível.

Assim também acontecia dos fortes para com os fracos. Mas uma dor ainda atingia aqueles que não estavam muito contaminados pela doença, era a consciência. Valores aprendidos em uma sociedade que os aceitavam, eram agora deixados de lado a duras custas, era preciso sobreviver. Nem todo treinamento poderia supor tamanha atrocidade para aquelas pessoas e cada mordida os fria a alma. Uns comiam aterrorizados, outros comiam a se desculpar internamente e em lágrimas, outros poucos conseguiram fugir para o terreno rochoso em um ato de coragem dupla contra a fome e contra um planeta surreal, a fim de defender suas dignidades.

Já existiam grupos de proteção mútua e rivais uns dos outros, aqueles que fugiram sucumbiam visivelmente pelas janelas daquele lugar. O terror se mostrava intolerante e os que eram levados à loucura, logo serviam de banquete... Tudo era a se temer.

Na sala de armamentos estava Rokier, faminto a saboreando um suculento seio... O que era difícil, pois seus dentes podres já estavam a atrapalhar. Dividia-a com um grupo de seis pessoas... Enfim, ele resolve se livrar de um colar que o incomodava e a culpa o dominou por completo quando leu o nome de sua irmã, Amáris. Ali ele perdeu a fome, mas sabia que nada poderia fazer diante de um grupo faminto.

6. Um novo caos.

Naquela região acinzentada e com pedras flutuantes, lá está o monumento da invasão humana a um planeta hostil. São construções agressivas que deveriam denotar o espanto, medo e admiração por parte de uma população alienígena não encontrada. O ferro sobe também nas construções paralisadas, as máquinas já acumulam poeira e do lado de dentro, os humanos perecem.

Em reunião fechada, o rosto do Comandante Cláudio e de seis subordinados de auto escalão é de um medo perante o desafio invencível, não parece existir possibilidades. Enquanto discursam sobre o caminho a tomar, entreolham-se as aparências fúnebres, rostos sem lábios, rosto sem nariz, sem orelha, alguns olhos que não funcionam mais, o cabelo que cai desproporcionalmente, as mãos putrefadas, unhas que soltam etc. Resistiam ainda na idéia de aparência, o que ligeiramente os enganava mutuamente quanto a uma boa saúde e condições psíquicas para participar daquela reunião. A frieza da liderança se mostrou pela opção de alimentar apenas os que aparentavam boa saúde, como que a condição deles próprios os dariam álibi para a salvação por mais alguns dias; alimentação e água já se mostravam escassos e entregar os mais doentes a própria sorte seria a única alternativa possível.

Engenhosamente se puseram a selecionar mentalmente aqueles que deveriam ser mais ápitos ao direito de sobreviver por mais algum tempo. Os critérios perpassavam de subordinação à interesses emocionais daqueles que escolhiam, todavia, estes motivos não eram questionados... Aquele momento trazia em si algo de laços humanos no momento mais crítico e cruel de suas vidas e era comungado por eles naquela pequena sala de comando.

Em diversos lugares do recinto, era possível - para quem ainda podia ouvir – escutar o chamar de nomes, nomes estes que deveriam dirigir-se para o setor de alimentação.

Em poucos minutos a iniciativa do comando se viu um algoz da organização. É que aqueles que foram chamados rapidamente deduziram que o seriam para um destino trivialmente cruel. No pensamento dos tripulantes, isso não passava de um grande extermínio generalizado a fim de erradicar a doença. Tudo começou com um boato e agora se viam liderados por uma engenheira eletrônica de nome Gátaza. A confusão e o espírito de revolta diante das intempéries fomentou uma agitação geral, que já batia a porta da sala de comando.

segunda-feira, 4 de junho de 2007

5. Realidade tortuosa.

Dos corredores bem iluminados, dos salões de jantares, dos dormitórios, das salas técnicas de operação... Tudo se resume ao grande pavor e sofrimento experimentado por aquela tripulação. Os olhares desesperançosos se cruzam a procurar respostas mirabolantes que lhes dessem calma e conforto, todavia, não é esta a impressão que circula por todo o ambiente.

Do lado de fora, as construções estão paralisadas. O protótipo esquelético das edificações mostram a ruína do empreendimento, a solidão é a imagem que se preserva aos olhos que buscam, das janelas na nave-mãe, vislumbrar aqueles projetos de momunentos destinados a ruína. O ambiente hostil com as pedras flutuantes continua, mas agora imponente pelo poder desconhecido que fere aquela população acuada. As máquinas da engenharia fecham o quadro desolador, absolutamente esquecidas no exterior do ambiente.

A praga agora era generalizada e até mesmo o comandante Cláudio se via infectado. Seu semblante era desolador diante da confirmação da equipe médica da impossibilidade de cura de toda uma tripulação. Ao que parece, aquele mal trazia a mortificação do tecido humano e estariam todos condenados a perecerem lenta e dolorosamente.

O segundo impacto contra a força de vontade de Cláudio foi a negativa ao pedido de socorro enviado ao planeta Terra. Em reunião, foi forçosa o consenso de mentir e racionar a alimentação esperando efetivamente por um milagre que jamais iria se concretizar.

Enquanto isto, uma das enormes pedras que flutuava dirigia-se lentamente em direção deles, o que causava um temor não generalizado, pois para alguns, a morte seria um bem naquele momento. Alguns corpos em putrefação e ainda vivos, a lástima da empreitada humana.